Esqueço coisas minhas por todos os lugares. Estou espalhada pelos cantos, estou entranhada até em você. Acho que isso vem da minha vontade de abraçar o mundo e ter braços pequenos demais. Me divido e distribuo partes minhas por aí. É a minha maneira de achar que assim, talvez assim, eu passe a ser mais leve. Querendo que existir deixe de ser tão pesado eu me solto por tudo em um ímpeto de esperanças e eu encho a cidade de estilhaços meus para que assim não me firam tanto.

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Eu silencio, fico imaginando se todos sentem o mesmo que eu. Engraçado, sentir tornou-se algo secundário, as aparências importam mais. Fecho os olhos e me concentro, faço um grande esforço para não transparecer o sentimento. Estou normal, estou bem. Ajo tão tranquilamente que ninguém jamais duvidaria do que tenho carregado por dentro durante todos esses anos. Me sinto forte afinal, depois de muito esconder o sentimento que trago comigo, acabei o esquecendo em algum buraco escuro por aqui.
Quebram o silêncio e a pergunta me chama a atenção, “alguém sabe se amanhã chove?”, não sei, ouvi dizer que sim, se chover fico em casa, me tranco por lá e aproveito pra ver se encontro o que eu perdi enquanto escondia tanta coisa dos outros. Acho que vai chover. Eu espero que chova, o cheiro de chuva é bom e o barulho acalma. Calma, me sinto calma, nem sei mesmo se quero encontrar o que deixei cair pelo ralo da alma, acho que não preciso mais fazer esforço algum, menti tão bem que acreditei em mim mesma. No final das contas até meu sentimento acreditou em mim e nem sabia mais se era verdadeiro.
Engraçado, sentir tornou-se algo secundário.

As coisas estão fora de controle, eu estou fora de controle. Meu tempo não basta, estar sobrecarregada já tornou-se uma constante.  Onde eu clico pra me duplicar? Triplicar? Preciso urgente de algo que me ajude a organizar tudo isso, todo esse monte que acumula e me soterra viva. Muita coisa, repito, muita coisa pra uma cabeça só pensar!

Cadê toda aquela coragem que a gente gritava ter e batia no peito jurando ser real? Onde a gente enfiou aquele impulso absurdo de dar o primeiro passo sem saber se logo adiante tinha um precipício? Me conta! Mostra! Pelo amor de deus, pelo amor do pouco que sobrou de deus em nós, me indica o caminho daquela verdade que a gente exaltava, porque até agora não nos vi sendo tão bravos, tão destemidos e cobertos de razão. To sentindo saudade da gente sendo na teoria, porque na prática parece que nossos discursos estão falhando. Meu bem, estamos caindo por terra. Não conseguimos nem ao menos sustentar nossas próprias histórias como vamos sustentar uma história só nossa? Tá doendo não é? Isso é a gente querendo ser e não conseguindo.

Você sumiu novamente e eu volto a ficar triste como das outras vezes, mas dessa eu sinto que preciso te contar como as coisas ficam quando você vai. Na primeira vez eu superei. Doeu, mas eu não pensei que você fosse voltar e quando voltou, fiquei tão feliz que nem lembrei do que você me deixou sentindo ao partir. E lá foi você, mais uma vez sumindo de um dia pro outro, sem deixar rastros, sem responder mensagens, evaporando do meu universo, me castigando por algo que nem fui avisada de ter feito. Fico triste e acho que você sabe, mas não se importa, porque sempre que volta acaba partindo e parte o meu coração também.

É com você mesmo que eu quero falar, ou com essa coisa fria que sobrou aí no seu lugar. Tanto faz! Seja com você ou com aquilo que eu queria que você fosse. Nós dois precisamos deixar uma coisa bem clara! Você roubou algo de mim, e eu agradeceria se, de bom grado devolvesse o que tomou sem permissão. Será que dá pra me escutar um pouquinho, ao menos agora que não tem mais nada pra falar? Estou sentindo um pedaço vazio em mim, tudo parece ter sido dividido em antes e depois de você. Você arrancou algo que eu gostava muito, e se não for pedir demais tô querendo de volta. Depois de você eu nunca mais usei meu italiano como modo de conquista barata. E como faz falta! Não por ser com você ou por ter deixado de ser com você, entenda bem, você pouco importa. A questão aqui se trata do amor que eu tinha pelo italiano, que você teve todo o cuidado de destruir. E acho que essa é uma das poucas coisas que me deixam com raiva de você. O problema é você ter causado esse impacto todo sendo tão pouca coisa na minha vida. Dá raiva de você e de mim, aliás principalmente raiva de mim. Deixei mais um levar algo bonito embora.

Vem cá, acho a gente precisa muito conversar. Ontem eu percebi que posso ter agido sem pensar e tratei de te julgar como se você fosse a pior coisa do mundo, mas eu sei que você não é, que tem insistentemente tentado provar e eu boba, fecho os olhos, bato o pé e te chamo de mau, cuspo na sua cara e saio por aí espalhando como fui vítima de suas conspirações mirabolantes. Me desculpa, mas nós precisamos concordar que com você nem tudo são flores, e reconheça que há muito já me magoou sem necessidade, daí então estaremos prontos para começar do zero. Te darei uma chance de ser legal, bonito e leve comigo, e prometo que paro com essa bobagem de te difamar por aí. Vamos acabar com essa briga, todo ano você chega e eu me sinto febril, não tenho mais motivos pra me sentir assim, a culpa não é toda sua abril.