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Anoiteceu lá fora e eu estou no trabalho. A cabeça achou um tempo pra pensar e me deparei com uma vontade incrível e arrebatadora. Eu quero chorar. Quero chorar por você, pela sua partida. Pelo sentimento que ficou depois de tudo isso.
Mas o que ficou não me move, não me dói. O que ficou foi anestesia, inerte. Ficou somente a perda de noção do tempo, a vontade de dormir, o gosto azedo de morte, a minha ausência, dentro de mim.
No fim, ficou nada, nem você. Muito menos você.
Mas eu fiquei, fiquei parada.
Parei. Enquanto todo o resto – que não fosse a sua partida, a anestesia, a perda de noção do tempo, a vontade de dormir, o gosto azedo de morte, a minha ausência dentro de mim e você – continuava.

Estava eu então em um período onde nada realmente poderia me acordar, nada e ninguém além de… E é exatamente aí onde está a ironia. De mim.
A falha no sistema é que tenho uma capacidade enorme de mascarar as coisas e ser feliz por cima de tudo. Quem diria? Eu, em depressão. Incrivelmente fascinada e ofegante, com um mundo cheio de esperanças, observando de cima, tudo, por dentro do meu casulo escuro. Eu estava sofrendo e nem sabia.
Veja bem, como pude ignorar todos os sinais que enviava à mim mesma todos os dias que se passaram até aqui? Vezenquando batia aquela súbita consciência e eu escrevia coisas como “who’s holding me back?”. Eu, eu mesma.

Três passos pra trás, sabe como é. Por segurança.
Todos meus planos se acabando pela metade, tudo aquilo que se diferenciasse do meu estado inerte era na hora, banido. A simples emoção de conclusão já me tirava do sério.
Nada forte por hoje, obrigada. Meu vazio foi facilmente confundido com calma, havia levantado o tapete e varrido a poeira pra baixo, com uma discrição imensa.

Francamente, dentre todas as pessoas falhadas por aí com quem convivo diariamente, nunca pensei que seria você quem me daria tamanho desgosto. O que aconteceu contigo? Já não falamos mais sobre nada, e olhe só, o quanto demorou para eu ter coragem o bastante e te falar algo.
Miguel, cansei de começar a escrever e ter sempre que colocar teu nome a frente. Uma amiga me disse que teu problema vem da tua força, que talvez tu esteja mesmo querendo ser forte demais e nessa ânsia de vencer qualquer sentimentozinho que ameace tua calma se enfiou aí nesse tanque de contenção. Não te entendo, onde é que tu foi parar? Tinha mesmo que se esconder até de mim? Mas que droga! Achei que com a gente o lance era único e no final tu é igual aos outros, só que dentro de mim.
Traíra, um judas interno.

Já não me recordo mais como fazia tudo que fazia antigamente, Miguel. Perdi a noção que tinha das coisas que em mim transitavam livremente, parece que, de certa forma, acidentalmente iniciaram um processo de reset. E esqueceram de devolver o que vinha por dentro.
As pessoas já não me interessam mais. E a culpa é de quem, se não dos sonsos que não me conquistam? Dá mesmo pra apontar o dedo na minha cara por não saber gostar?
No final das contas nem sei porque te pergunto isso, você também nunca teve vocação nenhuma para um ser apaixonado e muito menos apaixonante. Mas as pessoas por aí amam, Miguel. As pessoas que vivem fora da minha janela são altruístas, estão do mesmo lado por uma causa maior, elas fazem por amor. A que lado pertenceremos, já que não sabemos amar?

Sonhos loucos sobre ela abrindo a porta de casa.

Olá, que bom que você está de volta. Todos aqui sentiram muito sua falta, eu disse que uma hora ou outra você acabaria voltando e eles ainda insistiam em elaborar diversos planos pra te buscar, mas eu sabia, juro que sabia que você iria decidir voltar.
Eu senti a tua falta, eu senti desesperadamente a falta da tua alegria por aqui. Ah! Não sei nem por onde começar, as coisas estão muito diferentes. Você não vê? Até eu mudei desde que você se foi. Mas agora, agora que você retornou tudo parece completo de verdade, tudo parece real. Achei que não fosse sobreviver sem você, achei que depois da sua partida nada mais teria sentido. E foi mesmo vazio enquanto você não esteve aqui, eu estive vazia, estive perdida entre meus pensamentos, não conseguia nem escrever!
Imagine só, se você não tivesse voltado teria levado contigo não só a esperança, mas metade de mim, para nunca mais, pra longe, pra onde nem você sabe direito onde fica.
Mas deixa isso pra lá, você sentiu saudades, você não me deixou aqui mofando, eu sabia, juro que sempre acreditei. Você voltou! E eu estou aqui, sem acreditar, estou aqui extasiada com todo esse fôlego que subitamente voltou, com todo esse oxigênio puro adentrando os pulmões, com essa sensação de estar viva e de finalmente, finalmente valer a pena.
Ah, você voltou!

Finalmente te encarei. Olhei na tua cara, como quem espia um corredor escuro e não desviei o olhar. Eu te invadi, sem acender nenhuma luz. Sem tropeçar nos teus móveis, engoli minha coragem toda e desbravei meu pavor da escuridão.
E você nem é tão grande assim, não chega nem perto de mim. Sou grande demais pra você. Para você e pra todos os outros que não me olham nos olhos e que não alcançam até o meu peito, que vivem na margem e que não querem, ou não sabem querer.
Te encarei, despejei pra fora. Você e todos os outros que são pouco alguma coisa dentro de mim.

Já que você veio até aqui de tão boa vontade, sentou-se na minha frente e apoiou o punho no rosto como quem espera por algo há muito tempo, me sinto no dever de te explicar o que aconteceu,  que estou em débito contigo, mesmo não querendo estar.
Veja bem, entendo que não tenha sido fácil, mas não havia outra opção. Nós dois já não podíamos continuar com o que quer que fosse aquilo que havíamos construído. Espero mesmo que ontem a noite toda minha sinceridade não tenha sido em vão. Você que sempre me implorou por algo que eu não conseguiria dar talvez até fique orgulhoso de mim em saber o motivo pelo qual vamos conversar.

Eu estou amando. Amando as manhãs em que eu acordo e não tenho que pensar de que maneira vou me virar em cinco, só pra poder te ver no final da tarde. Levantei da cama cantando “I got a pocket full of sunshine” e admirando pela janela o dia que eu poderia dedicar só pra mim, correr pela casa sem roupa e não fazer as unhas, porque você não vai reclamar mais do meu esmalte azul descascando no dedo indicador. Eu estou amando. Me apaixonei perdidamente por esse compromisso em não me comprometer. Entrei em êxtase com as maravilhas de uma vida onde nem você e nenhum outro me cobram presença alguma.

Hoje fui dormir sem ter que discutir por ter deixado de ligar. E amanhã vou sair sem nenhuma preocupação em avisar. É sério, não precisa me olhar com essa cara de deboche, pois afinal não está em posição de debochar, você foi trocado por alguém mil vezes melhor. E não é só isso meu bem, por que fui fisgada pelo coração, e quero me casar. Vou fazer o pedido e tudo mais.
O melhor é que eu já até sei a resposta, acho que faz parte dessa coisa de amor, quando nos apaixonamos temos certeza de tudo não é? Pois então, eu aceito!
É comigo mesma que eu vou me casar.