Arquivos do Autor:Júlia Rosés

Acho que não preciso me apresentar, parece que você me conhece bem. Mas insiste em fazer os mesmos julgamentos precipitados sobre mim. Vamos lá, se acalme! O que eu tenho pra te dizer não é nada que você já não saiba. Talvez só precise ouvir diretamente de mim e é por isso que eu vim conversar.
Sou forte, comigo você não deve se preocupar, já vivi muito, recebendo pouquíssimo dos outros, não precisa me proteger tanto assim. O que? É claro que eu tenho medo! Afinal, não sou de ferro, as pessoas me machucam. Você me machuca! Você me machuca quando não consegue se permitir e acaba não me permitindo sentir também. Não, eu não estou te pedindo nada, não quero te cobrar nenhum tipo de desculpa, senta aí e me escuta. A gente se conhece há alguns anos e eu nunca havia sentido necessidade de ter essa conversa antes, sempre te achei muito bem resolvida, mas de uns tempos pra cá alguma coisa mudou. Estou me sentindo um pouco doente e tenho certeza de que você sabe do que eu estou falando. Estou começando a me sentir pressionado e nós dois sabemos como é complicado para eu tomar uma decisão dessas, pois no final acaba se tornando uma enterna guerra com aquele cara que fica aí em cima na tua cabeça, gritando, todo cheio de razão que eu estou errado e que vamos nos enganar novamente.
Então eu senti que já era hora de começar a falar. Vem cá guria, escuta o que o teu coração tem pra te dizer, você não precisa me cercar tanto assim e me encher de muros só porque existe uma chance de me enganar. Se por acaso isso acontecer nós podemos encarar mais essa, mais outra e mais todas as outras que virão! Vê se não me deixa perder a voz, não me sufoca por ter medo de estar errada, eu sei que já errei antes, sei que nós dois já fomos passados pra trás e que é difícil voltar a confiar. Se quiser nem me escute, mas ao menos me deixe falar!

As coisas estão fora de controle, eu estou fora de controle. Meu tempo não basta, estar sobrecarregada já tornou-se uma constante.  Onde eu clico pra me duplicar? Triplicar? Preciso urgente de algo que me ajude a organizar tudo isso, todo esse monte que acumula e me soterra viva. Muita coisa, repito, muita coisa pra uma cabeça só pensar!

Cadê toda aquela coragem que a gente gritava ter e batia no peito jurando ser real? Onde a gente enfiou aquele impulso absurdo de dar o primeiro passo sem saber se logo adiante tinha um precipício? Me conta! Mostra! Pelo amor de deus, pelo amor do pouco que sobrou de deus em nós, me indica o caminho daquela verdade que a gente exaltava, porque até agora não nos vi sendo tão bravos, tão destemidos e cobertos de razão. To sentindo saudade da gente sendo na teoria, porque na prática parece que nossos discursos estão falhando. Meu bem, estamos caindo por terra. Não conseguimos nem ao menos sustentar nossas própias histórias como vamos sustentar uma história só nossa? Tá doendo não é? Isso é a gente querendo ser e não conseguindo.

Esse texto saiu quase que psicografado pra fora de mim, fui invadida por esse sentimento. Quando acabei de escrever pensei que se tratasse de algum relacionamento que tive, mas logo após conversar francamente com um amigo,  percebi que se tratava do drama dele e que no texto eu me incluia trágicamente no sentimento dele, como se tivesse escrito por sentir dentro dele também. Essa explicação pode ficar com uma ordem cronológica meio mal compreendida, então vou esclarecer, escrevi antes de saber que ele precisava “conseguir ser”.

Você sumiu novamente e eu volto a ficar triste como das outras vezes, mas dessa eu sinto que preciso te contar como as coisas ficam quando você vai. Na primeira vez eu superei. Doeu, mas eu não pensei que você fosse voltar e quando voltou, fiquei tão feliz que nem lembrei do que você me deixou sentindo ao partir. E lá foi você, mais uma vez sumindo de um dia pro outro, sem deixar rastros, sem responder mensagens, evaporando do meu universo, me castigando por algo que nem fui avisada de ter feito. Fico triste e acho que você sabe, mas não se importa, porque sempre que volta acaba partindo e parte o meu coração também.

Oi, é com você mesmo que eu quero falar, ou com essa coisa fria que sobrou aí no seu lugar. Tanto faz! Seja com você ou com aquilo que eu queria que você fosse. Nós dois precisamos deixar uma coisa bem clara! Você roubou algo de mim, e eu agradeceria se, de bom grado devolvesse o que tomou sem permissão. Será que dá pra me escutar um pouquinho, ao menos agora que não tem mais nada pra falar? Estou sentindo um pedaço vazio em mim, tudo parece ter sido dividido em antes e depois de você. Você arrancou algo que eu gostava muito, e se não for pedir demais tô querendo de volta. Depois de você eu nunca mais usei meu italiano como modo de conquista barata. E como faz falta! Não por ser com você ou por ter deixado de ser com você, entenda bem, você pouco importa. A questão aqui se trata do amor que eu tinha pelo italiano, que você teve todo o cuidado de destruir. E acho que essa é uma das poucas coisas que me deixam com raiva de você. O problema é você ter causado esse impacto todo sendo tão pouca coisa na minha vida. Dá raiva de você e de mim, aliás principalmente raiva de mim. Deixei mais um levar algo bonito embora.

Vem cá, acho a gente precisa muito conversar. Ontem eu percebi que posso ter agido sem pensar e tratei de te julgar como se você fosse a pior coisa do mundo, mas eu sei que você não é, que tem insistentemente tentado provar e eu boba, fecho os olhos, bato o pé e te chamo de mau, cuspo na sua cara e saio por aí espalhando como fui vítima de suas conspirações mirabolantes. Me desculpa, mas nós precisamos concordar que com você nem tudo são flores, e reconheça que há muito já me magoou sem necessidade, daí então estaremos prontos para começar do zero. Te darei uma chance de ser legal, bonito e leve comigo, e prometo que paro com essa bobagem de te difamar por aí. Vamos acabar com essa briga, todo ano você chega e eu me sinto febril, não tenho mais motivos pra me sentir assim, a culpa não é toda sua abril.

Pronto, oficialmente abril começou! Me forçando a ceder e escrever sobre ele. Maldito mês, maltidos dias, maldito universo que tende a tornar tudo tão complicado quando abril decide chegar, maldito negativismo que me impede de tomar algum partido positivo em frente a tudo que acontece. Finalmente abril chegou e eu, como sempre estou aqui dando a cara a tapa, pra ver se esse ano a coisa rola de outra maneira. Mas as coisas continuam iguais e eu já não aguento mais falar disso e ouvir as pessoas sendo extremamente cautelosas sobre tudo que eu tenho sentindo. Porra, isso tudo me entedia e eu não quero fugir do sentimento, eu não quero camuflar com coisas leves e dizer que passa, no momento tá tudo pesado mesmo e eu não tenho vontade de organizar um texto pra que soe bonitinho. Passei a manhã fugindo de tudo, não reagi e eu não queria reagir. Me sinto sem força e estou implorando pros dias passarem rápido ou pra que haja algum tipo de saída, dormir hoje e só acordar mês que vem, mas pelo jeito não tem e eu vou ter que segurar as pontas por aqui.

Acho que as minhas próprias ideias antipatizam comigo, elaboro rapidamente, escrevo e tranco. Esse mesmo processo se repete toda vez que algo em mim pede desesperadamente pra sair e eu tento, e faço o maior esforço, almejando algum tipo de alívio. Mas como se eu não tivesse mais capacidade nenhuma para organizar as letras, algo engasga, não permite nada sair e isso me tortura. Me encontro em agonia de não conseguir nem sequer me apoiar nas palavras. Mais uma vez o texto escapa de mim, chega de fininho, se instala e cala fundo, só pra depois fugir, me deixando com cara de boba e vontade de vomitar tudo no papel. Me concentro em todo esse sentimento e a mesma pergunta ecoa esperando resposta. Quem é que foi que entalou você em mim?

Tenho uma lista de coisas pra mandar pro conserto. As coisas por aqui quebram muito rápido, estragam, se desfazem no chão, talvez eu não seja cuidadosa, ou só não tenha sorte mesmo. Eu tenho muitas coisas pra mandar para outra pessoa arrumar, porque delas não entendo nada. Me sinto um pouco quebrada também e fico pensando na possibilidade de haver alguém que possa me consertar, faço graça comigo mesma e me imagino marcando hora com o sujeito, “tenho um coração arranhado e amassado, será que dá pra formatar ou algo assim?”, depois me lembro que alguns consertos custam caro e então me pergunto se a minha manutenção seria complicada ou se o custo-benefício pra ter um coração novo em folha valeria a pena. Minhas coisas tem conserto, posso comprar outra para pôr no lugar, deixando de lado o possível apego emocional que tinha com o objeto, mas meu coração? Não senhor, sou muitíssimo apegada a ele, desse jeito torto que ele é, do modo que os outros o deixaram. E mesmo que tenha conserto, tenho certeza que não vou cruzar por um anúncio em um poste que avise aos corações quebrados dessa cidade uma cura. “Conserto Gaita”, mas a minha gaita não tem conserto moço, já me acostumei com o som que dela sai assim meio estranho, marcado pelos outros, alguns tons acima do normal, sem esperança de que um dia volte a afinação original.
Eu demorei, mas olha, já estou até aprendendo a fazer um som bonito e sei que tem gente que gosta de ficar pertinho pra escutar. De todas as coisas que eu tenho por aqui que andam estragadas, meu coração eu nunca mandaria pra arrumar.

Resolvi escrever sobre você…

E não me importa o quão duro e desorganizado esse texto possa soar, porque você foi algo dentro de mim que definitivamente eu não pretendo cultivar.
Encontrei no meio de alguns rascunhos uma anotação que dizia assim: para não esquecer, dia 27 de novembro. E anotei sabendo que a minha péssima memória poderia me trazer problemas, quando tentasse lembrar o dia em que aceitei o teu pedido de namoro, mas eu daria tudo para esquecer! Eu daria tudo pra apagar esse buraco em que tu deixastes essa coisa dura que eu fingi não sentir. Fiz o maior esforço do mundo para me convencer que podia te amar, que o terreno parecia seguro, eu fiz força pra abrir o coração na marra só pra te deixar entrar, porque magoar mais um não parecia uma opção, porque eu já me sentia covarde demais por fugir de todos que cuidassem de mim, por bater a porta na cara de tanto sentimento bonito que tinha por aí. Mas acho que foi meu karma, tenho quase toda certeza que foi meu karma, algo em mim sabe que essa coisa toda de me doar inteira novamente, para alguém aceitar e jogar fora foi só porque decidi que dessa vez, eu não iria magoar você. Tudo bem, você deve estar pensando que tudo isso é novidade, todo esse meu sentimento, essa coisa toda sobre a minha mágoa de perder mais alguém, de te perder, mas não é. Você acha mesmo que depois de ser colocada de lado eu iria correr atrás? Você acha que eu iria me esforçar mais do que eu já fazia, pra manter uma relação unilateral? Mas é claro que não, juntei meus cacos e aceitei como se não fizesse a menor diferença, mas o teu silêncio calou fundo. Mesmo com todo o amor do mundo que eu pudesse sentir, mesmo com todo o carinho e a saudade que eu passasse a cultuar por ti, nada seria o bastante pra me fazer implorar por mais uma chance. Então decidi que o problema é seu por estar sem mim, que eu merecia dessa vez, gostar de alguém que não fosse me perder por tão pouco e me machucar tanto.